Casa, quase

Internato, externato e o meio-termo

Algumas crianças florescem num corredor de baús e chocolate. Outras precisam do quarto delas e do cão. As duas coisas valem. O trajecto também é uma espécie de internato.

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O internato na Europa não é uma coisa só. Uma casa suíça na montanha, um interno semanal inglês que apanha o comboio de sexta, uma efterskole nórdica, um colégio português com internato, um Internat alemão debaixo dos Alpes: climas diferentes, liberdades diferentes, ideias diferentes do para que serve um adulto depois das nove.

O externato também não é uma coisa só. Um campus internacional de Cascais a que se chega de comboio não é uma casa do Kent a que se chega por um caminho escuro, e nenhum dos dois é um lycée de Paris depois de quarenta minutos de guerra educada no RER.

A pergunta moral — «estamos a abandoná-los?» — costuma ser a errada. A útil é: onde é que esta criança se repõe, e quem está acordado se não puder?

Externato

O luxo subestimado de saber onde está toda a gente à hora do jantar. Forte quando o trajecto é humano e o mundo depois da escola é real — música, primos, uma rua que reconhecem, uma cozinha que ainda cheira à vossa família.

Fraco quando «externato» significa em segredo duas horas de trânsito e uma criança que faz os trabalhos de casa num corredor. Nesse ponto têm a solidão do internato sem o house parent.

Perguntem como se estivessem a contratar uma segunda casa:

  • A que horas acaba de verdade uma terça vulgar para este ano?
  • Há ATL pago, um autocarro tardio, uma biblioteca que fica aberta, ou a expectativa educada de que alguém recolha às 15:30?
  • O que faz uma criança quando os dois pais têm uma reunião tarde?
  • Quantos da turma vivem a mais de quarenta minutos?

Cronometrem o trajecto à hora a que o fariam em janeiro. Se se tornarem rudes no carro, a escola já está demasiado longe, por muito bons que sejam os laboratórios.

As internacionais de dia nas capitais costumam ir dos três aos dezoito num só campus. Pode ser uma mercê para um destacamento. Também pode ser um miúdo de catorze anos que nunca saiu do mesmo jardim. Perguntem como conhecem a cidade, não só a ONU.

Internato completo

Uma segunda casa, com toda a ternura e toda a política que isso implica. A Inglaterra ainda o faz como cultura: casas, dames, escola ao sábado, um fim-de-semana que nem sempre é vosso. As casas suíças e algumas francesas e alemãs fazem-no como um ano inteiro, por vezes com um trimestre de montanha.

Olhem para as noites, não só para o desporto de sábado.

  • Quem está de serviço quando uma criança não consegue dormir?
  • Para onde vai se estiver triste às 21:30 — uma sala comum, um piso de serviço, uma chamada para casa que de verdade é permitida?
  • Com que frequência voltam a casa, e isso é um consolo ou uma interrupção?
  • Como se sente o domingo à noite para quem tem os pais noutro país?

As melhores casas parecem uma família um pouco excêntrica, não um hotel com brasão. Os inspectores britânicos ainda escrevem sobre o bem-estar do internato em linguagem simples. Leiam o último relatório. Se não houver história de inspecção, peçam o manual de internato e o nome de quem segura a noite.

O internato completo é um mau remendo para um problema de família que não nomearam. É um bom remendo para uma criança que gosta de gente, um dia longo de escola e um quarto que é dela de segunda a sábado. É um remendo duro para quem se repõe sozinha e já acha o jantar barulhento.

Internato semanal e o «flex»

A especialidade europeia: a escola como casa durante a semana, o fim-de-semana como vosso. Bonito para vidas partidas entre cidades, para um vale que não tem o Gymnasium certo, e para crianças que querem a intensidade de um campus sem perder os ovos de domingo.

Perguntem como se sentem as segundas de manhã para quem voltou um pouco em cru. Perguntem se «flexi» significa uma noite extra a sério quando um concerto se alonga, ou uma palavra de marketing para uma casa cheia que por vezes tem uma cama livre. Perguntem o preço dessa noite extra antes do concerto.

O internato semanal continua a precisar de um adulto de fim-de-semana que não esteja esgotado. Se o comboio de sexta forem duas horas e o regresso de domingo for uma discussão, compraram um horário, não um descanso.

Residências, internatos e «internato a partir dos 11»

Em Portugal, em Espanha, em Itália e em partes da Áustria e da Alemanha, o internato pode ser uma residência colada a um colégio, ou um Internat com currículo nacional. A idade pode ser mais baixa do que o internato inglês completo, ou mais estreita (só os anos de exame). O modelo pastoral pode ser um prefeito, um tutor de residência ou um professor que também ensina.

Não importem para cima desse edifício a história de uma house inglesa. Perguntem quem lava a roupa, quem olha os trabalhos de casa, se os telemóveis dormem numa caixa e com que frequência uma criança vê o céu depois de jantar. Perguntem se externos e internos comem como uma só escola ou como duas.

Um internato de um colégio português não é um Saturday school do Kent. Pode ser mais pequeno, mais de refeitório e de estudo, mais perto de uma família do que de um brasão. Perguntem como se vive uma terça às nove, não como se fotografa o pátio no dia da padroeira.

O trajecto que quase é internato

Setenta minutos por sentido, cinco dias por semana, são mais horas fora de casa do que as que passam alguns internos semanais. Somem uma actividade tarde e têm uma criança que só vos encontra cansada.

Se escolherem entre um campus famoso do outro lado da cidade e uma escola mais quieta a que se chega a pé, ponham as duas semanas no papel: hora de acordar, hora de volta, hora de jantar, minutos a mais para nada. As crianças crescem nos minutos a mais.

A ponte em janeiro, ou o comboio da linha até ao Cais do Sodré, não são um pormenor. São o clima da infância.

Uma pergunta que fecha mais do que se espera

Esta criança repõe-se sozinha, ou entre gente?

O internato é barulhento de pertença. O externato pode ser mais quieto e continuar rico. Não há vitória moral em nenhum. Só está a versão do cansaço através da qual os podem querer.

Se não estiverem de acordo com o outro progenitor, digam de que têm medo cada um. Um costuma temer a solidão de um dormitório. O outro, uma cozinha que nunca os vê. Os dois medos são informação. Nenhum é um veredicto sobre o vosso cuidado.

Como experimentar antes de saltar

  • Uma noite durante a semana, não só um dia aberto
  • Uma refeição no refeitório
  • Uma conversa com um pai actual cujo filho tenha a mesma idade e um temperamento parecido
  • Se houver internato: o manual, a inspecção, um quarto habitado
  • Se for externato: o trajecto de janeiro, duas vezes

Se uma escola não vos deixar ver a tarde vulgar, acreditem nisso.

Depois vão para casa e façam à criança uma só pergunta: Conseguías descansar ali? Se ainda não souberem a palavra descanso, perguntem: Para onde irias se estivesses triste? A resposta que querem é um sítio e uma pessoa, não um encolher de ombros.

Orientação amiga, não aconselhamento formal. Confirme sempre as datas com a escola.

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