Época: Carcavelos, a partir de 19453 min de leituraPublicado em:
Aos onze anos, Paula Rego pintou o salão da escola em chamas
A futura pintora Paula Rego entrou no St Julian’s School, em Carcavelos, em 1945. O professor de arte entregou-lhe o salão da escola inteiro. A mãe foi menos generosa com a sala de estar.

Paula Rego chegou ao St Julian’s, a escola inglesa de Carcavelos, nos arredores de Lisboa, em 1945, com dez anos. Mais tarde contou a história dos seus tempos de escola para o arquivo Web of Stories, e nela está uma das melhores aulas de arte de que há registo.
Antes do St Julian’s tinha tido aulas em casa: bom inglês com uma explicadora e aritmética com outra, de quem não sentiu a falta. O St Julian’s do pós-guerra estava cheio de crianças vindas de todo o lado. Era misto, e desportivo, e tinha Chaucer. As ciências nunca pegaram. A arte pegou.
Um dos professores de arte acreditava que as crianças deviam ser soltas em cima de superfícies grandes, e um dia apontou para o salão da escola e disse-lhe que o decorasse todo.
Desenrolaram-se rolos de papel enormes pelo chão. Ela ajoelhou-se numa das pontas com guache, e o que pintou foi um massacre grego, lanças e cavalos e gente a cair, e uma cidade em chamas.
O salão estava à espera de margaridas.
O papel subiu às paredes. Ninguém, tanto quanto ela se lembrava, fez grande alarido sobre talento. Simplesmente deixaram-na pintar, e continuaram a deixar.
Depois a pintura seguiu-a até casa. A mãe organizava bazares de caridade, e já adolescente a Paula decorava-lhes as salas do hotel com grandes animais recortados. Isso foi aprovado. Até que um dia os pais chegaram a casa e encontraram os animais mudados para a sua própria sala de estar, por todas as paredes. A mãe ficou à porta e disse, no fundo, que aquilo tinha de sair dali.
Saiu. Ela queimou-os no jardim.
O salão da escola aguentava uma cidade em chamas. A sala de estar não aguentava uma girafa.
Neste momento estou do lado da mãe nesta história, e não me orgulho disso. A do meio, inspirada por um trabalho da escola sobre murais, pediu autorização para «fazer uma coisinha» na parede do quarto. Eu disse que sim, partindo do princípio de que uma coisinha era pequena.
É uma baleia. Em tamanho real, ou tão perto disso quanto um quarto em Bruxelas permite. A cauda dobra a esquina e passa por cima da porta, e o olho fica a vigiar-me quando entro com a roupa lavada.
Fiquei um bom bocado à porta. Abri a boca para dizer que ia ter de ser pintada por cima. Depois lembrei-me de como acaba a história de Carcavelos, com uma sala de estar cheia de animais a arder num jardim e uma rapariga que se tornou uma das grandes pintoras do seu século.
A baleia fica. O senhorio não foi informado. Se perguntar, digo-lhe que foi um trabalho da escola, de certa forma, e que o salão estava à espera de margaridas.
Sobre esta história: as cenas e os diálogos são imaginados ou livremente recontados. Os dados sobre as escolas referidas vêm de fontes publicadas, citadas nos nossos perfis de escola.