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Cadernos da escola

Época: Um projeto do 8.º ano em Vila Nova de Cerveira, 2025–263 min de leituraPublicado em:

As cartas de amor têm erros. É proibido corrigi-los.

Alunos do 8.º ano de Vila Nova de Cerveira foram investigar os Lenços dos Namorados, os lenços bordados do Minho. A ortografia faz parte da tradição.

Lenços bordados e linhas de cores imaginados.
Ilustração

Sou o tipo de mãe que corrige menus. Não em voz alta; não sou um monstro. Só olho para «expresso» um bocadinho tempo demais, e o meu marido diz o meu nome em voz baixa.

Por isso li com alarme sobre os Lenços dos Namorados.

São os lenços de namorados do Minho, no norte de Portugal. Uma rapariga bordava um para o rapaz com quem esperava casar: corações, pássaros, flores e uns versos. E os versos, nos lenços mais antigos, estão escritos como se diziam, por mulheres que muitas vezes tinham andado muito pouco na escola e bordavam as palavras tal como as ouviam.

A ortografia não é um erro. A ortografia é a tradição. É proibido corrigir.

Há um museu em Portugal onde a minha caneta vermelha seria confiscada à entrada.

Em Vila Nova de Cerveira, mesmo à beira do Minho, alunos do 8.º ano da escola local pegaram nos lenços, e uma equipa transformou o tema numa reportagem que ganhou um prémio num concurso de jornalismo escolar do Público. É mais investigação do que alguma vez fiz sobre um menu.

Nesta altura estou a rever a minha posição, e não de bom grado.

Cada um daqueles lenços foi escrito por alguém que queria dizer uma coisa, com clareza, a uma pessoa. Ninguém bordou um verso em linho para um examinador de ortografia. O rapaz que o recebia não o ia devolver com uma nota na margem. Se o fez, espero que tenha ficado solteiro.

Testei isto em casa. A mais nova escreveu um postal de anos para o pai. Dizia: PARABENS PAPÁ ÉS O MELHOR PAPÁ DA BELJICA.

Vinte anos a corrigir coisas empurraram-me a mão para um lápis. A mais nova viu a mão mexer-se e apertou o postal contra o peito como quem afasta um gatinho de um cão.

O meu marido recebeu o postal ao pequeno-almoço. Leu-o duas vezes, pô-lo em cima da lareira e disse que era o melhor postal que alguma vez recebera, em qualquer ortografia, em qualquer país, incluindo a Beljica.

Continua em cima da lareira. Passo por ele várias vezes ao dia. Tem um erro, dois se contarmos o país, e já me avisaram que, se lhe tocar, também fico solteira.

Sobre esta história: as cenas e os diálogos são imaginados ou livremente recontados. Os dados sobre as escolas referidas vêm de fontes publicadas, citadas nos nossos perfis de escola.