European School Guide
Cadernos da escola

Época: Um ano letivo em meados dos anos 90, das sextas dos bolos ao voo de junho3 min de leituraPublicado em:

Os bolos pagavam Londres devagar. Depois chegaram os pratos.

Em meados dos anos 90, uma turma do 11.º ano em Aveiro juntava dinheiro para Londres um bolo de sexta-feira de cada vez, até alguém falar numa fábrica de louça.

Pilhas de loiça imaginadas.
Ilustração

A venda de bolos é a máquina mais ineficiente alguma vez construída por pais. Já organizei quatro. A melhor rendeu 212 euros, dos quais 40 foram o meu marido a comprar de volta o seu próprio bolo de limão para ninguém o ver por vender.

Por isso, presto homenagem à turma do 11.º ano da Escola José Estêvão, em Aveiro, que em meados dos anos 90 queria ir a Londres e começou, como começam as turmas portuguesas, pelos bolos. Todas as sextas-feiras entrava um tabuleiro na sala dos professores. Todas as sextas-feiras voltava vazio e pegajoso. O fundo subia à velocidade de um fundo que depende de bolos.

Uma das mães pasteleiras era também professora na escola, o que queria dizer que, às sextas à tarde, comprava de volta os próprios bolos. Conheço aquela cara. Já a usei.

Depois um colega teve uma ideia. Tinha uma ligação familiar a uma fábrica de louça, uma das grandes perto de Aveiro, onde os pratos saem da linha aos milhares e um certo número sai ligeiramente torto: uma bolha no vidrado, uma asa de esguelha, uma linha azul que se pôs a passear. Louça de segunda. A fábrica podia oferecer alguma, e a turma vendê-la na escola?

Alguma chegou numa carrinha. A carrinha vinha cheia até ao tejadilho: pratos, chávenas, tigelas de sopa, em caixas embrulhadas em jornal. Foi tudo descarregado no átrio principal, que à hora de almoço parecia uma feira.

E então vieram os professores comprar.

É esta a reviravolta que eu pagava para ver. Durante um almoço, os alunos tinham uma coisa que os professores queriam, e os professores tinham de ser simpáticos. Um professor que nos tinha dado má nota no primeiro período estava agora a regatear um serviço de jantar. Alunos que andavam mal a Economia aprenderam o programa todo entre o toque e o fim do almoço.

Não se vendeu tudo. Durante uns tempos houve caixas debaixo das escadas e a escola ficou mobilada por acaso. Mas o fundo deu um salto, e em junho a turma voou para Londres. Para pelo menos um deles foi o primeiro voo. Em Londres andaram três dias a pé, e o que um deles recordou melhor foi uma loja de discos tão grande que tinha, num andar de cima, uma rádio atrás de um vidro, com um homem de auscultadores a falar para a cidade inteira enquanto adolescentes de Aveiro o espreitavam pela janela.

Aprendi a lição. Para a feira da primavera escrevi a uma fábrica de chocolate belga a perguntar se tinha chocolates de segunda.

Mandaram um vale de dez por cento de desconto e um folheto sobre alergénios. O bolo de limão vai à venda na sexta. O meu marido já tem a carteira na mão.

Sobre esta história: as cenas e os diálogos são imaginados ou livremente recontados. Os dados sobre as escolas referidas vêm de fontes publicadas, citadas nos nossos perfis de escola.